Um fenômeno de downloads com preço agressivo
Lançada oficialmente no Brasil em maio de 2023, a Temu, plataforma de e-commerce do grupo chinês Pinduoduo, surpreendeu o mercado ao adotar uma estratégia agressiva de preços e publicidade. Com produtos extremamente baratos e frete gratuito, o aplicativo conquistou rapidamente os brasileiros mais sensíveis a preço, acumulando quase 20 milhões de downloads — o que a colocou entre os apps mais baixados do país, ao lado de gigantes como TikTok e Instagram.
Tráfego não é sinônimo de faturamento
De acordo com o relatório “Setores do E-commerce”, da Conversion, a Temu já alcança mais de 216 milhões de acessos mensais, superando até mesmo a Amazon Brasil e se posicionando como o terceiro e-commerce mais acessado do país.
Apesar disso, especialistas alertam: tráfego alto não significa faturamento elevado.
Segundo Rodrigo Garcia, diretor-executivo da Petina Soluções Digitais, “curiosidade e preço baixo atraem cliques, mas o que move o mercado é faturamento, margem e operação sólida”.
A “taxa das blusinhas” e o impacto no modelo de importação direta
O modelo de negócios da Temu é baseado em importações diretas (crossborder), o que a torna vulnerável a mudanças regulatórias. A prova disso foi a criação da chamada “taxa das blusinhas”, que derrubou em 40% o volume de importações já no primeiro mês de vigência.
Dados da Receita Federal mostram que em janeiro de 2025, o volume de remessas internacionais caiu 27%, e o valor transacionado recuou 6% em relação ao mesmo mês de 2024.
Apesar de campanhas massivas, os números indicam que esse modelo está perdendo fôlego no Brasil.
Problemas de reputação: Temu enfrenta desconfiança global
A reputação da Temu também enfrenta sérios desafios — tanto no Brasil quanto em mercados internacionais.
- Na União Europeia, a plataforma foi alvo de investigações por supostas vendas de produtos falsificados.
- Nos Estados Unidos, uma pesquisa da Omnisend apontou que apenas 6% dos consumidores confiam na Temu, contra 86% que confiam na Amazon.
- No Brasil, o Google Trends mostra que buscas como “Temu é confiável?” e “Temu Reclame Aqui” estão entre os termos mais associados à marca.
Na plataforma Reclame Aqui, a Temu tem nota de 4.5/10, sendo considerada “não recomendada”, com reclamações envolvendo propaganda enganosa, produtos de baixa qualidade e envios incorretos.
O que dizem os consumidores brasileiros
As redes sociais também refletem a desconfiança crescente.
Relatos de consumidores que receberam impressões de imagens no lugar dos produtos reais viralizaram no X (antigo Twitter) e no TikTok. Uma usuária afirmou ter comprado uma organizadora e recebido uma placa com a foto do produto. Outro relato mencionou a compra de uma guirlanda de Natal que chegou como papelão recortado.
Ainda assim, há usuários que relatam boas experiências e alertam:
“Eu compro muito na Temu e amo. Nunca tive problema. Mas tem que saber olhar os detalhes.”
Falta de operação local é um ponto crítico
Um dos principais fatores que dificultam a consolidação da Temu no Brasil é a ausência de uma operação nacional estruturada.
Enquanto a Shopee afirma que 90% das vendas são feitas por vendedores locais, a Temu ainda atua baseada exclusivamente em remessas internacionais.
Isso significa:
- Menos geração de empregos no Brasil
- Menor pagamento de tributos nacionais
- Logística lenta e mais suscetível a erros
- Pouco suporte ao consumidor brasileiro
Segundo Rodrigo Garcia, “a Temu está apoiada em um modelo frágil, com baixa capacidade de se integrar ao ecossistema nacional de e-commerce”.
Dados financeiros globais da Temu
Apesar dos desafios no Brasil, a Temu continua faturando alto no exterior.
No quarto trimestre de 2024, a controladora PDD reportou lucro de US$ 3,76 bilhões, um aumento de 17,9% em relação a 2023.
Mas grande parte desse resultado não reflete o desempenho local brasileiro, onde a operação ainda é imatura.
Qual modelo de e-commerce o Brasil quer fortalecer?
A discussão vai além da Temu.
A grande questão é:
O Brasil precisa fortalecer um modelo sustentável de e-commerce — com vendedores nacionais, geração de empregos, e logística local — ou abrir espaço para operações que vivem de brechas tributárias e entregas de fora?
Enquanto plataformas como Shopee e Mercado Livre expandem suas estruturas no país, a Temu segue apostando em tráfego, preço baixo e envio internacional.
Mas até quando isso será suficiente?
Você vai esperar mais quanto tempo pra dar esse passo?
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